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Avanço da IA corrói financiamento do jornalismo no Brasil

ResumoAvanço da IA generativa em buscadores reduz o tráfego de sites jornalísticos brasileiros, agravando a crise de financiamento do jornalismo profissional. Dados da Ajor indicam queda expressiva de audiência, enquanto o PL 2338, em tramitação na Câmara, permanece sem acordo sobre remuneração de conteúdo. A ausência de regulação específica aprofunda a dependência de plataformas digitais.

O avanço da IA por meio de resumos de buscadores derruba o tráfego em sites jornalísticos e agrava a crise de financiamento do jornalismo profissional no Brasil. Entenda o impacto, os dados da Ajor e o impasse do PL 2338 na Câmara.

Marlene Okafor Vieira
Por Marlene Okafor VieiraComentarista de Direitos Humanos
Brasília · 09 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
Avanço da IA corrói financiamento do jornalismo no Brasil

Avanço da IA corrói financiamento do jornalismo profissional no Brasil

Por trás de cada queda de audiência há um repórter que perde o emprego, uma pauta que deixa de ser apurada, uma comunidade que fica sem informação verificada. É esse o efeito humano que os resumos de Inteligência Artificial (IA) dos buscadores estão produzindo no jornalismo profissional brasileiro. Quando um leitor encontra a resposta pronta no topo da busca, ele não clica no link do veículo. E sem clique, não há audiência. Sem audiência, não há publicidade. Sem publicidade, o jornalismo definha.

Os resumos gerados por IA, como o AI Overviews do Google, lançado em português em maio de 2024, vêm reduzindo o tráfego direto dos sites de notícias no Brasil. Segundo especialistas, a novidade também ameaça a integridade da informação, em um cenário já marcado pela proliferação de fake news impulsionadas pelas mesmas plataformas que dominam o mercado de IA.

O que dizem os dados sobre a queda de audiência

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que assessora 152 veículos on-line no Brasil, constatou que um de cada quatro desses portais perdeu, em 2025, mais de 20% da audiência. A conclusão é direta: "A queda de tráfego nos sites das associadas advindo de ferramentas de busca, uma preocupação generalizada na indústria jornalística, se mostra verdadeira no contexto das associadas".

A diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, classificou a queda como "preocupante" em entrevista à Agência Brasil, porque afeta a atração de publicidade e o financiamento baseado em "métricas de audiência". Ela explicou que o ecossistema jornalístico já vivia uma crise, com parte da publicidade migrando para plataformas digitais, e que os resumos de IA aprofundam esse quadro: "Os veículos que se financiavam, sobretudo por publicidade, já têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo".

O impacto na qualidade da informação

Não é só o bolso que dói. Carla Egydio alertou que os resumos de IA não oferecem o conteúdo completo das reportagens, o que compromete a qualidade da informação. "Isso pode gerar descontextualização, com prejuízos para o debate público. Você tem ainda os casos de cópia literal do conteúdo, que configura plágio", completou.

Um caso internacional ilustra a gravidade: o veículo Business Insider demitiu, em maio de 2025, 21% dos funcionários em meio a quedas de tráfego impulsionadas pelos resumos de IA. Barbara Peng, da direção executiva da companhia, justificou: "Setenta por cento do nosso negócio apresenta algum grau de sensibilidade ao tráfego [de usuários no site]. Precisamos estar estruturados para suportar quedas extremas de tráfego fora do nosso controle, por isso estamos reduzindo o tamanho geral da nossa empresa".

O impasse do PL 2338 e a luta por remuneração

A resposta institucional a essa crise está emperrada no Congresso. O Projeto de Lei 2338 de 2023, que institui o Marco Regulatório da IA, prevê que as plataformas digitais paguem pelos direitos autorais das obras e reportagens usadas pela tecnologia. O texto chegou do Senado e tramita na Câmara desde março de 2025, mas não avançou no último semestre, apesar da prioridade anunciada pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem pressionado pela aprovação. A presidenta da entidade, Samira de Castro, revelou à Agência Brasil que o lobby das big techs é forte: "Elas querem, para ter uma ideia, tirar toda essa parte que fala de direito autoral. Esse é um dos pontos que têm emperrado esse projeto na Câmara". Ela reconheceu que o texto tem fragilidades, mas traz avanços para garantir a remuneração do trabalho dos jornalistas. "O PL também não cria mecanismos específicos de transparência sobre quais conteúdos jornalísticos foram utilizados para treinar modelos de IA, mas isso pode ser objeto de regulamentação posterior", completou.

O que esperar da votação e os acordos privados

A assessoria de Hugo Motta informou que aguarda a manifestação do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). "A definição de uma data depende de o relator apresentar o parecer. E, diante do atual período eleitoral, o projeto deverá ser votado após as eleições de outubro", disse a nota. A comissão especial que analisa o tema não se reúne desde novembro de 2025, e a presidente do colegiado, deputada Luiza Canziani (União-PR), não retornou o contato da reportagem.

Aguinaldo Ribeiro defende mais debate, especialmente sobre a remuneração por direitos autorais: "Como é que isso vai funcionar para um artista independente? Como é que funciona? A operacionalidade eu tenho dúvida de como isso vai funcionar". As empresas de tecnologia criticam o texto, alegando que o dispositivo "na prática, inviabiliza o treinamento de novos modelos locais de IA". Nota de organizações empresariais, entre elas a Associação das Empresas de Tecnologia (Brasscom), afirma que a proposta "poderá isolar o Brasil no desenvolvimento da IA, além de impactar investimentos em infraestrutura digital".

Enquanto o Congresso não vota, o governo federal defende a aprovação. O secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, argumentou que a judicialização cresce: "Enquanto esse PL não for aprovado, o uso não autorizado de conteúdo jornalístico, ou qualquer conteúdo protegido por direitos de autor, para o treinamento de sistemas de IA, constitui violação de, ao menos, sete dispositivos da lei de direito autoral".

Paralelamente, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu investigação, em abril deste ano, sobre a conduta do Google e os impactos do uso de IA no mercado de mídia. O conselho avalia se a gigante abusou de sua posição dominante ao usar conteúdos jornalísticos sem remunerar os veículos.

No campo privado, dois grandes jornais brasileiros, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, fecharam acordos com a OpenAI e o Google, respectivamente. O acordo da Folha ocorreu após o jornal processar a OpenAI pelo uso de seus conteúdos.

Perguntas Frequentes

Como a IA reduz o tráfego dos sites jornalísticos?

Os resumos gerados por IA nos buscadores respondem diretamente à pergunta do usuário, que deixa de clicar no link do veículo. Isso reduz o tráfego direto e, consequentemente, a receita publicitária.

O que é o PL 2338?

É o Marco Regulatório da IA, em tramitação na Câmara, que prevê que as plataformas paguem pelos direitos autorais de conteúdos usados para treinar e alimentar sistemas de IA.

Quando o PL 2338 deve ser votado?

A assessoria do presidente da Câmara informou que a votação deve ocorrer após as eleições de outubro, dependendo da apresentação do parecer do relator.

O que o Cade está investigando?

O Cade abriu investigação sobre a conduta do Google, avaliando se a empresa abusou de sua posição dominante ao usar conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remuneração.

Quais jornais fecharam acordos com empresas de IA?

Folha de S.Paulo fechou acordo com a OpenAI, e O Estado de S. Paulo com o Google. O acordo da Folha veio após processo contra a OpenAI.

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